quinta-feira, 8 de julho de 2010

A musse de maracujá


Após almoçar, resolvi comer uma sobremesa numa lanchonete recém inaugurada no centro de Arraial do Cabo/RJ. Ao final, elogiei a musse de maracujá e fiz comentários a respeito de uma que eu comera noutro dia, numa outra lanchonete em um bairro próximo. Disse que tinha um sabor péssimo. _Lá é a nossa matriz, respondeu o balconista, com um sorriso amarelo musse.

A tecnologia dá conforto, mas ainda não trouxe a felicidade, coisa que só a arte pode fazer. Carros e tênis se acabam, poemas são eternos.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

hai cai


O sal cai na pista
vem orvalho da manhã
O ovo derrapa.

mês de chuva e frio
ruas caminham coloridas
em passos céleres
tropeço Caio Graco
levanto Túlio Marco
tonto, troco Marco Túlio
ave memória
chutei dois mil anos de história.



talvez o encontro próximo seja melhor
mais próximo
próximo

domingo, 4 de julho de 2010

antes era uma folha
em branco
mas nada pacificadora
ao contrário, era desafiadora
agora é um computador
preto, cinza ou multicor
mas zombeteiro:
_poeta maluco,
pode ficar aí direto
você tem o dia inteiro
a semana toda
o mês de janeiro
os 365 dias do ano
salvo engano.

poeta


sou poeta
mas não pago meia
não arrumo emprego
só ando com mulher feia
o meu desapego
é mais que necessário
uma vez que nem tenho salário
sou poeta
mas queria ser outra coisa qualquer
ter uma profissão
dinheiro casa carrão
diploma de doutor mulher
pensando melhor:
troco tudo isso por inspiração
pois gosto mesmo é de ser poeta.

sábado, 3 de julho de 2010


Liberdade de expressão é poder rir enquanto choram; chorar, enquanto riem; ou ficar indiferente quando todos o acharem diferente.

exílio


gostaria, primeiro de ser um poeta,
segundo, um esteta
terceiro: encontrar uma teta
estudar inglês
alemão
e chinês
e fazer, num verso só,
uma baita duma confusão
depois pedia asilo
em bom francês
ia morar nos Alpes
só desceria
pra renovar o estoque de cachaça
que nem bebo
mas reservo para um bom papo
com algum amigo mineiro.

diversos ii


era a minha primeira aula de Mandarim
o professor, um chinês, chegou assim
do jeito dele, meio samurai, meio monge
me disse: você vai longe
respondi: é por isso que estou aqui
não passei da primeira lição
agora, quando me dá desejo de ir à Pequim
ligo a televisão.



gosto de ler o que escrevo
declamar meus versos
contar meus contos
mas depois esqueço
afinal, também mereço.


Leminski passou por aqui
baixou em mim
fiz alguns poemas assim.


o mar subiu ao Malibu e pediu:
“suíte presidencial”
está ocupada, respondeu a recepcionista
tudo bem, volto noutra ocasião.


meu cão
da raça deutsch-hund
não fala alemão
eu também não
schwarzem mit Selbstbildnis Hund
é pra ele e pra mim
um tremendo palavrão.

diversos


perdoa,
poeta Leminske,
pensamento voa
quando tomo uísque


nesse ritmo lento
qualquer vento
contrário, ou a favor
causa-me pavor.


sou meio inteligente
meio animal
meio gente.


fiquei magoado
serviram-me uísque aguado
com gelo falsificado
da garganta ao fígado
todos ficaram queimados.


é madrugada
estamos na Baixada
onde nem galo canta
pra não dar a localização
também ele tem medo de ladrão.

quarta-feira, 30 de junho de 2010


Aqui tem muito ladrão
roubaram as rimas ricas
sei que isso não justifica
a falta de inspiração.

Madá

Conheceu Madalena pela Internet numa quinta,
Dois domingos depois estavam na Casa e Vídeo
Comprando um edredon pra casal
Madalena já chegou grávida
Um pouco diferente da foto
Muito diferente de tudo o mais
“Maldito Carlão, falou que isso não ia dar certo.”
“Mas vai dar, ora se vai.”
Madalena enjoada
Muito enjoada
Chega a ser chata
Só toma banho pelando de quente
Só faz sexo com a luz apagada
Mas só dorme com a luz do banheiro acesa
O bife tem que estar bem passado
Bebe café descafeinado
Brigou com a sogra
Não quer gatos
Não gosta do cachorro
Ora sente muito frio,
Ora muito calor.
Reza a toda ora
Ora de hora em hora
Tirou a tevê da sala
Tanto pediu que a mãe acabou vindo do sul
Pronto
João havia se apaixonado mesmo era pela mãe de Madalena
Que não estava grávida
Que não era diferente
Que não era enjoada
Que se deu bem com a sua mãe
Adora cães, gatos e trouxe um papagaio
Que fala “João”
Dorme com as luzes apagadas
Faz sexo com as luzes acesas
Não liga pra tevê
Nem liga pra nada
Um táxi deixou Madalena e malas no aeroporto
Vai ter o bebê em sua cidade natal, talvez fique por lá.
Melhor para o bebê, melhor pra todo mundo.

Insegurança


Confesso que já me senti mais seguro
Mas isso já faz algum tempo
Muito antes do muro
Não o Muro de Berlim,
Mas muito antes, sim
Sequer havia favelas por aqui
Ou invasão
Muito menos, ladrão
A Polícia era o cabo Jorge, o soldado Faqueco
E o doutor Claudio
Que descobrimos, muito depois, que também era soldado
Quanta pureza havia na nossa alma
Quanta beleza, que vida calma
Não havia batalhão
Nem delegacia legal
Pois o legal era o cidadão
Éramos todos amigos
Podia até haver alguma intriga
Nada que duas Igrejas não resolvessem
Mas nada de assalto
Nada de assassinato
Sequer havia corrupção
Se havia era mais velada
Não tanto às escancaras
E tão conhecidas caras
Confesso que já me senti mais seguro
Mas agora ando mesmo em cima do muro
Com cacos de vidro e arame farpado
Grades nas janelas, trancas nas portas,
Câmeras pra todo lado
Aqui pra nós: ando até armado
Mas não ando de madrugada,
Nem ando sozinho,
E respeito os bandidos da cidade
Nem sou louco de denunciá-los
Tenho mesmo medo de morrer
Confesso que já me senti mais seguro
Mas isso já faz algum tempo
E quanto mais tempo, menos seguro
E quanto menos seguro,
Menos tempo
Menos tempo com os amigos,
Com a família,
Menos tempo comigo mesmo
Confesso que gostaria de andar só
Mas ando com o Medo.

domingo, 27 de junho de 2010

A/ jus/ti/ça/ não é/só / len/ta
ain/da an/da/ de/ ca/rru/a/gem
é/ mui/to/ da / pa/cho/rren/ta
não é/jus/ti/ça, é/ sa/ca/na/gem

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Incerteza


Vai que dá certo
Não tentou
Vai que cola
Não falou
Vai que vai
Não foi
Vai que é sua
Não era
Vai que vou
Não foi
Não fui.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Grafite carmim


A poesia não veio, é?
Abra a gaveta
Lamba um desses selos empoeirados
Guardados até quando
Se depois disso ela não vier
Corte os pulsos
Traspasse o coração com uma lapiseira de marca
Veja o próprio sangue escorrer na ponta do grafite
Mas antes deixe algum recado
Quem sabe, vem um outro e transforma esse seu recado em poesia, idiota
Vai, desloque a vírgula, se isso te dá prazer idiota.
Enquanto você não se define, se definha
Mas... não tem jeito mesmo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Ivan Modesto

Ivan, Ivan Modesto
Que loucura de protesto
Que a vida é uma droga
Isso é mais que notório
Mas vida, meu caro, se prorroga
Agora vamos nós para o teu velório
Ivan, Ivan Modesto
Tu não sabes o quanto detesto
Caixão, vela, defunto
Coveiro, exéquias, cidade do pé-junto
Ivan, Ivan Modesto
Nem para homenagear presto
Queria dizer-te que tu eras um cara bacana
Mas como, se para ti mesmo fostes sacana
Ivan, Ivan Modesto
A vida é mesmo uma bosta
Isto é manifesto
Cada dia é uma nova aposta
Assim como num jogo
É preciso saber perder
Sei que é fogo
Mas do teu jeito, como vencer?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cabo Sarmento, o vingador.



O sargento Teodósio nem se apresentara ainda ao quartel e sua fama de mau se espalhara na tropa. O encarregado de fazer o marketing negativo foi o cabo Sarmento, que, segundo o próprio, servira com o sargento no Rio de Janeiro. Aliás, corria nos bastidores que o sargento Teodósio fora o responsável pela transferência do Sarmento, a contragosto, claro, porque o Sarmento estava bem instalado no Rio. Agora vinha ele, certamente para transferir o Sarmento para uma fronteira. O Sarmento saiu de férias, depois pediria licença especial, não queria ver a cara do desafeto. E o Teodósio se apresentou. Cara de mau.
Teodósio era mesmo muito mau. Menos graduado que ele, não havia conversa: atropelava. Exigia continência até de outro sargento mais moderno. Quando a tropa saia para fazer algum tipo de exercício, o Teodósio não ia. Diziam que era peixinho do comando. Mas, segundo o Sarmento, o problema era outro. E mostrou uma foto. “Que que isso!?” exclamaram todos. Era a mulher do Teodósio. Um mulherão. E o sargento tinha medo de ser corneado. Não era pra menos. E foi aí que a língua ferina do cabo mais uma vez entrou em jogo. Ele, o cabo Sarmento, espalhou que já fora amante da Sonja. Por isso, o Teodósio o odiava e o transferira para Manaus. “Estou fazendo o meu requerimento para sair de seis meses”, disse o Sarmento. “Quando eu voltar, se esse sujeito estiver aqui ainda, peço a minha baixa”, emendou. E lá foi o Sarmento em direção à ala administrativa, ao departamento de pessoal. Meia hora depois volta ele, desanimado, cabisbaixo. Não poderia sair de licença, o quartel estava com deficiência de pessoal. Lamentou-se e, falando baixo, como se quisesse que poucos o ouvissem, murmurou: “Vou procurar Sonja e encher esse calhorda de chifres”. Nesse dia o sargento estava de serviço. Dia seguinte, o Sarmento volta todo sorridente. Dissimulado, não revela como fora a noite, mas todos imaginavam. Junto com as felicitações vieram os pedidos de cuidado, pois a soldadesca que ficara no quartel sentiu de perto a raiva do Teodósio. Não viam a hora de ele abandonar o posto e ir em casa, de surpresa.
Como numa freada, a vida no quartel se ajeitou. Teodósio de serviço, alegria do Sarmento e da tropa. Estava ousado, trazia até fotos da Sonja pelada, como para provar o feito. Até que um dia, o cabo chegou para os colegas e abriu o jogo:
_Rapaziada, a Sonja levou todo o meu dinheiro. Já vendi o carro para o marido dela a preço de banana, revelou.
_Como assim!? perguntaram, incrédulos.
_Não revelei pra vocês, mas a Sonja me cobra pelos programas, e não é pouco, aliás, ela cobra de todo mundo. Se algum de vocês quiser, eu levo até ela, desabafou.
_Caro quanto, quiseram saber os amigos.
_Já devo mais de vinte mil reais, revelou. E vou parar com isso. O cara sempre descobre, numa dessas eu acabo morrendo e bau-bau, adeus Sarmento, o vingador.
_Mas você não pode fazer isso com a gente, imploraram.
E faria, caso os amigos não tivessem construído uma vaquinha para levantar quarenta mil reais para o cabo quitar a dívida e ficar com uma sobrinha para recomprar o carro, além de uma “ajuda motel”. Mas valia a pena, porque o Sarmento prometera fotos fazendo sexo, sem revelar o rosto, lógico. Ele usaria uma máscara, e mostrou ali a máscara, e todos saberiam que era ele, Sarmento, o vingador da tropa.
E foi assim que começaram a surgir algumas fotos da Sonja fazendo sexo com um sujeito mascarado. A tropa se sentia vingada dos castigos impostos pelo sargento. O Sarmento comprou um carro novo e caro, e mostrou uma foto com a Sonja ao lado, no banco do carona, mas essa ele não deixou cópia com ninguém. Dizia que até ali todos eram amigos, mas no futuro as fotos podiam ser usadas contra ele. Os soldados entenderam.
E a vida prosseguia, tranqüila. Tranquila até o dia em que um soldado que trabalha na lavanderia encontra num dos bolsos do uniforme do cabo uma foto da Sonja com uma dedicatória no verso: “Aos meus dois amores, meu marido Teodósio e meu irmão Sarmento, assinado: Sonja.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Morreu tarde


Na tua morte
Sequer houve luto
Deram-lhe um caixão fajuto
Sequer ouvi choro da consorte.

Nos teus tempos áureos
Com saúde e muito dinheiro
Havia amigos vários
Hoje são como agulha em palheiro

Quanto sacrifício para esta gente
Que a contragosto
Sob um sol quente
Conduzem o teu corpo insolente

Não atenderam o teu último desejo
Que o teu corpo fosse doado
Pelos vermes não querias ser comido
Também não deixou grana para ser cremado.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O alérgico


_ Gripou, não? – observou o senhor sentado à mesa em frente, após eu espirrar duas vezes seguidas.
_ É só uma reação alérgica. Provavelmente ao ar-condicionado. Vou mudar de lugar. – respondi.
Mudei de lugar e continuei a espirrar.
_ Tome, esse remédio é batata. Nunca fico resfriado. – receitou.
_ Não, obrigado, não faço automedicação. Como falei, é uma alergia boba, convivo com ela há anos. Já, já passa. – insisti.
O senhor pediu um copo de água mineral ao garçom, aproximou-se da mesa, tirou o comprimido da cartela e me deu. Aliás, empurrou minha goela abaixo, quase me engasgando. Tomei dois goles d`água para ajudar a descer e perguntei que droga era aquela que eu havia tomado.
- Não esquenta. Viu, parou... não está tossindo mais. Falei, é ba-ta-ta.
- Que remédio é esse!?- insisti, perdendo a paciência.
- Loratadina. Coisa boa. – respondeu na maior calma.
_ Boa, boa. É boa pra sua avó. Não posso tomar loratadina, me causa todos os efeitos colaterais da bula: tosse, congestão nasal, distúrbios na micção, dor na coluna, cãibras, mal- estar. Você me ferrou. – vociferei.
O efeito foi imediato. Menos de um minuto estava sentindo tonteiras.
- Caramba, a sua pela está avermelhada! – observou o outro – A minha sogra tem o mesmo problema. Veja, sorte sua, passei na farmácia hoje cedo e comprei o remédio dela. Vai, passe um pouco nos braços. – sugeriu, solicito.
- Também sou alérgico a corticóides. – expliquei, depois de ver a embalagem. Sabe de uma coisa: vou acabar chamando a polícia se você me receitar mais um desses seus remédios. Tentativa de homicídio e exercício ilegal da profissão. – esbravejei.
- Como assim ilegal? Sou médico, olhe a minha carteira.
- E era mesmo. Psiquiatra, mas médico.