quarta-feira, 9 de junho de 2010

Grafite carmim


A poesia não veio, é?
Abra a gaveta
Lamba um desses selos empoeirados
Guardados até quando
Se depois disso ela não vier
Corte os pulsos
Traspasse o coração com uma lapiseira de marca
Veja o próprio sangue escorrer na ponta do grafite
Mas antes deixe algum recado
Quem sabe, vem um outro e transforma esse seu recado em poesia, idiota
Vai, desloque a vírgula, se isso te dá prazer idiota.
Enquanto você não se define, se definha
Mas... não tem jeito mesmo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Ivan Modesto

Ivan, Ivan Modesto
Que loucura de protesto
Que a vida é uma droga
Isso é mais que notório
Mas vida, meu caro, se prorroga
Agora vamos nós para o teu velório
Ivan, Ivan Modesto
Tu não sabes o quanto detesto
Caixão, vela, defunto
Coveiro, exéquias, cidade do pé-junto
Ivan, Ivan Modesto
Nem para homenagear presto
Queria dizer-te que tu eras um cara bacana
Mas como, se para ti mesmo fostes sacana
Ivan, Ivan Modesto
A vida é mesmo uma bosta
Isto é manifesto
Cada dia é uma nova aposta
Assim como num jogo
É preciso saber perder
Sei que é fogo
Mas do teu jeito, como vencer?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cabo Sarmento, o vingador.



O sargento Teodósio nem se apresentara ainda ao quartel e sua fama de mau se espalhara na tropa. O encarregado de fazer o marketing negativo foi o cabo Sarmento, que, segundo o próprio, servira com o sargento no Rio de Janeiro. Aliás, corria nos bastidores que o sargento Teodósio fora o responsável pela transferência do Sarmento, a contragosto, claro, porque o Sarmento estava bem instalado no Rio. Agora vinha ele, certamente para transferir o Sarmento para uma fronteira. O Sarmento saiu de férias, depois pediria licença especial, não queria ver a cara do desafeto. E o Teodósio se apresentou. Cara de mau.
Teodósio era mesmo muito mau. Menos graduado que ele, não havia conversa: atropelava. Exigia continência até de outro sargento mais moderno. Quando a tropa saia para fazer algum tipo de exercício, o Teodósio não ia. Diziam que era peixinho do comando. Mas, segundo o Sarmento, o problema era outro. E mostrou uma foto. “Que que isso!?” exclamaram todos. Era a mulher do Teodósio. Um mulherão. E o sargento tinha medo de ser corneado. Não era pra menos. E foi aí que a língua ferina do cabo mais uma vez entrou em jogo. Ele, o cabo Sarmento, espalhou que já fora amante da Sonja. Por isso, o Teodósio o odiava e o transferira para Manaus. “Estou fazendo o meu requerimento para sair de seis meses”, disse o Sarmento. “Quando eu voltar, se esse sujeito estiver aqui ainda, peço a minha baixa”, emendou. E lá foi o Sarmento em direção à ala administrativa, ao departamento de pessoal. Meia hora depois volta ele, desanimado, cabisbaixo. Não poderia sair de licença, o quartel estava com deficiência de pessoal. Lamentou-se e, falando baixo, como se quisesse que poucos o ouvissem, murmurou: “Vou procurar Sonja e encher esse calhorda de chifres”. Nesse dia o sargento estava de serviço. Dia seguinte, o Sarmento volta todo sorridente. Dissimulado, não revela como fora a noite, mas todos imaginavam. Junto com as felicitações vieram os pedidos de cuidado, pois a soldadesca que ficara no quartel sentiu de perto a raiva do Teodósio. Não viam a hora de ele abandonar o posto e ir em casa, de surpresa.
Como numa freada, a vida no quartel se ajeitou. Teodósio de serviço, alegria do Sarmento e da tropa. Estava ousado, trazia até fotos da Sonja pelada, como para provar o feito. Até que um dia, o cabo chegou para os colegas e abriu o jogo:
_Rapaziada, a Sonja levou todo o meu dinheiro. Já vendi o carro para o marido dela a preço de banana, revelou.
_Como assim!? perguntaram, incrédulos.
_Não revelei pra vocês, mas a Sonja me cobra pelos programas, e não é pouco, aliás, ela cobra de todo mundo. Se algum de vocês quiser, eu levo até ela, desabafou.
_Caro quanto, quiseram saber os amigos.
_Já devo mais de vinte mil reais, revelou. E vou parar com isso. O cara sempre descobre, numa dessas eu acabo morrendo e bau-bau, adeus Sarmento, o vingador.
_Mas você não pode fazer isso com a gente, imploraram.
E faria, caso os amigos não tivessem construído uma vaquinha para levantar quarenta mil reais para o cabo quitar a dívida e ficar com uma sobrinha para recomprar o carro, além de uma “ajuda motel”. Mas valia a pena, porque o Sarmento prometera fotos fazendo sexo, sem revelar o rosto, lógico. Ele usaria uma máscara, e mostrou ali a máscara, e todos saberiam que era ele, Sarmento, o vingador da tropa.
E foi assim que começaram a surgir algumas fotos da Sonja fazendo sexo com um sujeito mascarado. A tropa se sentia vingada dos castigos impostos pelo sargento. O Sarmento comprou um carro novo e caro, e mostrou uma foto com a Sonja ao lado, no banco do carona, mas essa ele não deixou cópia com ninguém. Dizia que até ali todos eram amigos, mas no futuro as fotos podiam ser usadas contra ele. Os soldados entenderam.
E a vida prosseguia, tranqüila. Tranquila até o dia em que um soldado que trabalha na lavanderia encontra num dos bolsos do uniforme do cabo uma foto da Sonja com uma dedicatória no verso: “Aos meus dois amores, meu marido Teodósio e meu irmão Sarmento, assinado: Sonja.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Morreu tarde


Na tua morte
Sequer houve luto
Deram-lhe um caixão fajuto
Sequer ouvi choro da consorte.

Nos teus tempos áureos
Com saúde e muito dinheiro
Havia amigos vários
Hoje são como agulha em palheiro

Quanto sacrifício para esta gente
Que a contragosto
Sob um sol quente
Conduzem o teu corpo insolente

Não atenderam o teu último desejo
Que o teu corpo fosse doado
Pelos vermes não querias ser comido
Também não deixou grana para ser cremado.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O alérgico


_ Gripou, não? – observou o senhor sentado à mesa em frente, após eu espirrar duas vezes seguidas.
_ É só uma reação alérgica. Provavelmente ao ar-condicionado. Vou mudar de lugar. – respondi.
Mudei de lugar e continuei a espirrar.
_ Tome, esse remédio é batata. Nunca fico resfriado. – receitou.
_ Não, obrigado, não faço automedicação. Como falei, é uma alergia boba, convivo com ela há anos. Já, já passa. – insisti.
O senhor pediu um copo de água mineral ao garçom, aproximou-se da mesa, tirou o comprimido da cartela e me deu. Aliás, empurrou minha goela abaixo, quase me engasgando. Tomei dois goles d`água para ajudar a descer e perguntei que droga era aquela que eu havia tomado.
- Não esquenta. Viu, parou... não está tossindo mais. Falei, é ba-ta-ta.
- Que remédio é esse!?- insisti, perdendo a paciência.
- Loratadina. Coisa boa. – respondeu na maior calma.
_ Boa, boa. É boa pra sua avó. Não posso tomar loratadina, me causa todos os efeitos colaterais da bula: tosse, congestão nasal, distúrbios na micção, dor na coluna, cãibras, mal- estar. Você me ferrou. – vociferei.
O efeito foi imediato. Menos de um minuto estava sentindo tonteiras.
- Caramba, a sua pela está avermelhada! – observou o outro – A minha sogra tem o mesmo problema. Veja, sorte sua, passei na farmácia hoje cedo e comprei o remédio dela. Vai, passe um pouco nos braços. – sugeriu, solicito.
- Também sou alérgico a corticóides. – expliquei, depois de ver a embalagem. Sabe de uma coisa: vou acabar chamando a polícia se você me receitar mais um desses seus remédios. Tentativa de homicídio e exercício ilegal da profissão. – esbravejei.
- Como assim ilegal? Sou médico, olhe a minha carteira.
- E era mesmo. Psiquiatra, mas médico.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Os súditos da rainha


“Nós descendemos da Marinha Britânica. Conhece a história da Volta de Nelson?”. Esse nós eram eles, os oficiais da Armada. Eu sabia da história do almirante inglês, embora não me interessasse por ela. Queria apenas cumprir o meu tempo de serviço e mandar todo mundo tomar naquele lugar, coisa que já fizera antes, mas não era um bom negócio, pois conhecia a cela onde ficara Tiradentes, numa rocha na Ilha das Cobras.
O babaca que me falava essas coisas era o oficial do dia. Entornara algumas doses de Cavalo Branco legítimo, contrabandeado pelo Navio Escola Brasil. Lógico, pois que cota era essa que abastecia quase todos os oficiais generais da briosa e ainda sobrava para um batateiro velho como o Ary? Só mesmo na ilegalidade, no contrabando oficial. E ainda vem o cretino dizer-me que é súdito da rainha da Inglaterra.
Quem eu era? Eu era o master-cook. Sim, que mais eu poderia ser? Entrei no jogo da autoridade. Não tem o velho ditado, una-se aos seus inimigos? Aliás, o oficial nem era meu inimigo, só estava enchendo a minha paciência, depois de eu ter, sozinho, preparado comida para mais de cem homens, entre o pessoal de serviço e os nordestinos e sulistas que moravam a bordo, pois o salário era tão merda quanto o ambiente. Já falei, estava somente aguardando o final do meu contrato para mandar... isso.
Bom. Se eu era um chef inglês ante um discípulo de Nelson, nada mais lógico que preparasse um prato á altura do oficial e convidados. Sim, nos finais de semana eles levavam convidados para o navio, gostaria de vê-los levar para uma churrascaria na Barra e pagar do próprio bolso, mas isso eles não fazem.
“Capitão,vou preparar um prato inesquecível para o senhor e convidados, um prato digno de um oficial da corte, disse-lhe, sério, para não parecer ironia.”
“Desde quando você sabe fazer outra coisa a não ser fritar batatas e ovos?”
Fingi não ouvir a ofensa ao bom profissional que eu fora.
“Que tal, capitão, comer um legítimo Sunday roast? Pode convidar inclusive o oficial superior da Força. Aliás, capitão, eu já cozinhei para o ministro da Marinha, pode olhar a minha caderneta.”
Cozinhara mesmo, até o dia em que a mulher do ministro achou que eu poderia cozinhar para eles em Petropólis. Eu perguntei se o mar havia subido a serra. Por isso estou nesse navio velho.
Comprovada a minha passagem por Brasília, desfiei para o capitão o que seria o prato, mas antes o adverti que precisaria abrir a frigorífica para pegar peru, carneiro, presunto assado e ingredientes para preparar os molhos gravy, cranberry, as verduras especiais, maçãs para acompanhar o gammon, material para preparar o molho de menta que acompanha o carneiro, e também para preparar o molho de raiz forte para acompanhar as verduras.
“Sem problemas”, foi o que ouvi.
O Sunday roast, não estava acreditando que ia comer novamente um Sunday roast, e ainda queria sair da Marinha, só mesmo eu.
Vou economizar ao caro leitor o tempo que levei preparando a iguaria, que modéstia à parte estava digna de qualquer rei ou rainha. Almoçaram cerca de doze pessoas, entre familiares, amigos do capitão e o oficial superior da força, que estava na relação dos novos almirantes a serem promovidos na semana seguinte, bem mais antigo que o comandante do navio.
Os elogios vieram a mim pelo automático e junto a eles um convite do novo almirante, para ser o seu cozinheiro, o que foi prontamente aceito. Bom, vocês já sabem que um navio velho como o Ary, apelidado de batateiro, não teria todos aqueles ingredientes em sua frigorífica a não ser por um motivo especial. Por obra do acaso, eu ouvira o imediato e o comandante acertando os detalhes do jantar de troca de comando da força, que seria no nosso velho e querido Ary Parreiras. Para todos os efeitos, eu não sabia a finalidade daqueles mantimentos. Bom, o capitão não chegou a conhecer a prisão onde ficara Tiradentes, mas foi transferido para Ladário, Mato Grosso do Sul, com dez dias de prisão para serem cumpridos lá. Deve ser assim na Gã-Bretanha. Sorry.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Link para Modernismo - 3º ano

http://pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo
Fränzi perante uma cadeira talhada (1910), de Ernst Ludwig Kirchner, Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid

Link para Romantismo 2º ano

http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo


(The Charge of the Mamelukes) Goya - 1814

sábado, 3 de abril de 2010




Esses óculos ficam bem no seu rosto.
Fora do seu rosto, ficam mal
Os óculos, sim, têm bom gosto
Não escolhem qualquer rosto, afinal.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Aula de redação


_O tema de hoje é sobre as férias. Contem em vinte linhas como foram as férias de vocês.
_Ué professor, o senhor viu a gente o tempo todo, já sabe como foi. Ninguém foi pra Paris nem pra Disney, ficamos aqui no morro, que não tem cinema, nem quadra de esportes. Nossa redação não dá nem três ,linhas.
_Tá bem, vamos ver outro tema, que não seja a violência, pelo amor de Deus.
_Podemos falar da não violência.
_Ótimo, gostei da idéia.
_O Zoião, amigo nosso desde garotinho não matou ninguém nessa semana, não vendeu fumo na boca e nem alugou armas aos pessoal da outra favela. Está tudo em paz aqui na comunidade desde a semana passada, uma tranquilidade, dá gosto viver na favela em que nasci, vou até me orgulhar. As “minha nota” aumentaram todas e os professores não faltaram mais, embora nem recebesse aumento. Acho que vou terminar a oitava série e antes dos trinta termino o segundo grau, se continuar essa calmaria toda, acho que não vai dá pra fazer faculdade. Ponto final.
_Ótima, muito boa redação. Pode melhorar, acrescentando informações importantes que o leitor naturalmente vai questionar. Como exemplo o motivo pelo qual o Zoião não matou ninguém, não vendeu mais fumo e nem alugou armas. E por qual motivo você não vai entrar na faculdade, já que o clima está tão favorável.
_Poxa, professor, o senhor pede “pra gente não falarmos” de violência, e agora quer saber isso. A polícia passou o cerou no Zoião, por isso ele não faz mais nada daquilo. Quanto a faculdade, só não vou fazer porque quem ia pagar ia ser o Zoião, como ele morreu, eu me ....dei mal.

domingo, 28 de março de 2010


Eu a quero
porém Ela não me quer
prefiro ficar só
a ficar com outra mulher



Que castigo
Casada três vezes
Nenhuma comigo

sexta-feira, 26 de março de 2010

Sai uma saideira aí.


O colesterol tá alto, doutor?

Muito alto?
Muito
Muito, muito?
Muito, muito, muito
Passando de trezentos?
Cada muito é muito
Pois é, tem muito muito
Tem jeito?
Não vejo
A pressão tá alta, doutor?
Não?
Isso é bom?
Não
Por quê?
Tá muito, muito, muito, baixa
E cada muito é muito muito
Isso
E agora?
Pede a saideira.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Lições pela internet


O que você vê na tela?
Vários ícones. É esse o nome dessas figurinhas e símbolos, lá no alto?
Isso, isso. Tá vendo, você já sabe alguma coisa.
Mas isso é moleza, até a minha irmã de seis anos sabe.
Tem razão. Bem, vamos lá. Clique com o botão direito do mouse sobre o ícone que se parece com uma folha A4 com uma dobrinha, no canto esquerdo da tela, lá no alto.Vai aparecer uma tela em branco. Digite nela.o que você tem para digitar.
Dez minutos depois, novo contato.
Digitei, e agora?
Isso, agora vá em “janela”, na palavra, ainda lá em cima, e clique com o botão direito do mouse. Vai aparecer uma relação de opções. Clique em “mala direta”.
O amigo espera alguns segundos:
Clicou?
Um minuto, pediu o aluno-amigo.
Não um, mas três minutos depois, o amigo-professor volta a perguntar:
E aí, ainda não clicou?
Ah, cliquei.
Que demora! Apareceu o quê?
Cara, a tela apagou geral, tá toda escura, mas a vizinha do 701 acabou de desabotoar o sutiã.

domingo, 7 de março de 2010

O secretário de inclusão


Não é que o prefeito da pacata Rosarina do Agreste, a 400km da capital, ia receber o assessor do governador do estado? Para a pequena cidade estava bom demais, porque a única coisa que vinha da capital era má notícia em lombo de burro velho, trazida por algum mascate igualmente velho. Isso, em lombo de burro, tamanho era o atraso do arraial.
Todos os preparativos estavam sendo feitos. A esperança era que o assessor saísse de Rosarina com uma boa impressão e trouxesse o governador, o que garantiria a reeleição. Tudo parecia correr dentro das normalidades, quando o mestre de cerimônia interrompeu o cochilo do prefeito.
_Sim, e eu com isso que o homem seja mudo?
_ Mas ele vem ver justamente isso, seu prefeito, o que nós fizemos com a verba para preparar os professores da rede para a tal da inclusão. Pior, não vai trazer intérprete. A verba, aquela verba que o senhor usou para comprar votos, era para os professores aprenderem LIBRAS.
_Vixe Maria!
_É, vixe Maria. E agora?
_Manda chamar o secretário de inclusão social
_E desde quando nós temos isso?
_A partir de agora. Nomeie alguém.
_Quem?
_Timbaúba.
_Abestou, é? O homem é de oposição.
_Então, é por isso mesmo. Ele para de falar mal da gente. Se der errado, o que eu acho que vai acontecer, quem se queima é ele.
_Mas como desgraça esse sujeito vai aprender a falar língua de mudo?
_Isso é mole, já vi na televisão. Esqueceu que a internet já chegou até nós? E o homem tem um computador em casa. Ele se vira, é coisa pra dar errado mesmo.
No dia e hora marcados, o Santana com placa branca estacionou diante da prefeitura.
O assessor desceu e se dirigiu ao gabinete. Ao lado do prefeito, todo altivo e só sorrisos, Timbaúba. Secretário de Inclusão Social, com portaria retroativa e direito a mais dez cargos comissionados, direito esse que ele exerceu imediatamente, nomeando toda a família, pois no interior é assim que funciona a política.
Conversa vai, conversa vem,Timbaúba até então estava perfeito. Conseguiu dar as boas vindas, apresentou o prefeito, a primeira dama e os secretários, mas quando a coisa pegou mesmo, mandou o prefeito chamar a polícia e prender o assessor do governador. Motivo? No gabinete ele disse ao prefeito que o assessor estava chamando não só o prefeito de ladrão, mas todo o seu secretariado, pois o gesto de cruzar a mão direita espalmada em vertical, sobre a esquerda com a palma voltada para baixo, queria dizer que o prefeito havia repartido a verba para a preparação dos professores. E o homem ficou mesmo preso durante alguns dias, até que o governador, vendo que o seu assessor não voltava da viagem, mandasse um intérprete e um advogado ao lugarejo. Adeus visita de governador, adeus reeleição,.
Em off, para o seleto grupo de amigos, Timbaúba, já sem portaria, disse que não perderia por nada desse mundo a oportunidade de acabar com a raça do prefeito, que agora estava passando por um processo de impeachment por conta mesmo do roubo. Mas quem conhece Língua Brasileira de Sinais, como o secretário de educação, que não é consultado nem na hora de contratar os professores, coisa feita pela primeira dama, garante que Timbaúba é um analfabeto em LIBRAS, pois o que o assessor dissera, entre outras coisas, foi que o prefeito estava negando aos surdos-mudos o acesso à educação. Não dissera que estava roubando.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Uma viagem com as letras


Ah, hoje pela manhã deu-me vontade de escrever
Isso mesmo: escrever
Simples
Uma imensidão de mundo a nossa volta
E mal o contemplamos
Mudei de idéia
Vou desenhar
Parece mais fácil
Desenharei, lógico, à minha maneira
Que será uma espécie de escrevinhar
Escrever e desenhar
Um m para o mar
Vários enes para as gaivotas
Um C emborcado para o morro ao fundo
Um W dá uma linda montanha nevada,
Basta virá-lo
Assim como dois R, deitados e um com a perna virada para o outro
Um E dormindo de barriga para baixo
É a casinha do pescador
Que está lá longe, depois das ondas
Num barquinho em forma de U
Pescando com a letra J
Que tem forma de anzol.
Faço ruas curvas e suaves como o S
Outras, fechadas e perigosas
Como o Z
Uma árvore cheia de X
Outra com vários Os maduros
Ao longe, uma cabana de índio, um A perfeito
Iluminada com lâmpadas em forma de G
Dependuradas em postes T
Tudo muito, muito colorido
Um campinho de futebol com traves de rúgbi
Ou um campinho de rúgbi com bolas redondinhas como os Os?
Viro o Y de ponta cabeça, colo o D em sua perna
Pronto, tenho um moleque de rua, barrigudo
Co m o Q na cabeça
Dando língua o tempo inteiro
Rsrsrssr. Não me contive e ri
O L com o O na cabeça, é um moleque sentado
Observado pelo P
Deito dois K e faço uma mesa reforçada
Com madeira reciclada
Aliás, foi a primeira coisa que fiz
Pra desenhar
Do meu jeito, eu falei
Caso falte algumas letras
E faltam
Você mesmo pode desenhá-las
Ou escrevinhá-las.
Aliás, nem precisa faltar letras
Você pode desenhar outras letras.
Como uma pintura,
Elas se precisam
Para formar palavras
Formar frases
Pra conversar
Poxa, pra tanta, mas tanta coisa,
Que com poucas palavras
Não dá para contar
Nem pintando.
Descobriu que letras estão faltando?
Isso o B
E o V
Não podiam faltar as rimas
Nessa pintura
São duas artes
São primas
A plástica
E a literatura.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Meus poemas


Esses poemas
Meus dilemas
Tristes temas
Mas poemas

Esses poemas
Como algemas
Dores extremas
Mais poemas

Esses poemas
Presos à pele , meus emblemas
Como a força da alfazema
Demais poemas

domingo, 8 de novembro de 2009

Como Timbaúba conquistou uma das mulheres mais bonitas do Brasil






Só acreditei porque vi as fotos e os negativos, mesmo assim, pedi a um amigo do Instituto Carlos Éboli para verificar se não eram falsos, o que abalou a nossa amizade. Foi assim:
Segundo Timbaúba, ele estava tranquilo no escritório, num sábado ensolarado de primavera, quando uma espécie de princesa, meio perdida, tentava abrir a porta de vidro. Nesse dia ele dispensara a secretária, aguardava a hora de pegar a filha no cinema. Sabia de cara que a visita não era para ele, a moça havia se enganado de sala, certamente. Mesmo assim, foi até à porta, que possui esses vidros que só permitem a visão a partir da parte interna, e abriu-a. Sem que a moça pudesse esboçar qualquer reação, tacou-lhe um beijão de boca, Ela, lógico, ficou espantada e revoltada, nessa ordem. O diálogo, vou transcrevê-lo:
_ Olhe aqui... seu...seu .... desaforado, sem graça, nojento, esbravejou.
_ Pelo jeito, você se enganou de sala; e eu, de namorada, retrucou, calmamente o jovem e sedutor Timbaúba.
_Você pensa que eu acredito nisso, idiota, cretino, palhaço, sem graça.
_ Tem todo o direito do mundo de duvidar, de estar aborrecida, chateada, zangada, mas não pode me chamar de nojento e nem de cretino, só agora a reconheci. Te peço mil desculpas. Não sou nojento, sou até simpático e um profissional bem sucedido. Tenho entre os meus clientes vários amigos seus, como por exemplo fulana, sicrano e beltrano, que, aliás, jpa foi seu diretor numa das novelas.
_ Isso não muda a minha opinião a seu respeito. Quer saber do mais, fui, passar bem.
_Mas você não disse o que procurava, posso te ajudar e, caso duvide da minha sinceridade, venha ver a foto da minha namorada, verá que realmente ela se parece demais com você.
Nem eu, como já disse, acreditaria, mas a moça entrou no escritório. Acho que para tirar mesmo a dúvida, porque se houvesse alguém parecida com ela, certamente estaria entre as mais bonitas e não seria desconhecida, com certeza. Ou foi só curiosidade. O que isso importa, não estou aqui para analisar o universo feminino, não me atrevo.
Timbaúba era mesmo um pândego. A foto que ele mostrou em nada se parecia com a moça, nem havia como isso ser possível. Esta não teve outro jeito a não ser cair na gargalhada, tudo que o nosso amigo desejava.
_Aqui, por hoje chega. Não estou mais aborrecida contigo, esquece que me viu. Até nunca mais.
_Como é possível esquecê-la? Hoje eu fui o sujeito mais feliz do mundo, embora o beijo tenha sido roubado.
_Ah! Então nem namorada você tem. Você é uma piada, no meu trabalho deve haver uma vaga pra você.
_Pode até ir embora, mas me diga somente uma coisa: o beijo, você gostou do beijo?
O nosso herói só foi saber da resposta uma semana depois, quando a moça reapareceu no escritório. Se ela gostou do beijo? Disso não duvido.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Praia da Ilha - Arraial do Cabo/RJ


Foto de J. Conde

O bêbado e a passageira


As sua viagens eram quase sempre longas e de ônibus. Tinha pavor de avião e não sabia dirigir. Funcionário público federal, fora transferido para o Pará. Duas vezes no ano ia ao Recife visitar parentes. Para aguentar a viagem, segundo o próprio, só mesmo com uma mulher bonita ao lado. Para conseguir tal proeza, uma semana antes da viagem, ele começava a frequentar o terminal. Passava horas proximo ao guichê da Viação Itapemirim, a observar se alguma moça desacompanhada - e bonita - comprava um bilhete para o Recife. Se isso acontecesse, ele compraria a poltrona ao lado dela.
Num sábado à tarde, arrumou as malas e resolveu viajar com qualquer companhia, pois se esperasse mais alguns dias poderia passar as férias na rodoviária. Comprou a poltrona 17 e ficou por ali, próximo ao guichê, ainda com esperança de uma companhia feminina, queria saber quem compraria a dezoito. Minutos depois, uma senhora muito idosa, tossindo bastante, aproximou-se da bilheteria e comprou a 18. A velha era meio surda, pois o vendedor teve que lhe informar a plataforma de partida várias vezes. Era meio cega também, porque pediu ao nosso colega Timbaúba para ler o horário escrito no bilhete. Pelo visto não confiava no vendedor. Como o ônibus só sairia dentro de duas horas, a anciã deixou a rodoviária, talvez para pegar as malas.
Mal a idosa saiu, Timbaúba correu para o guichê e pediu pelo amor de Deus para trocar a passagem. Mas já era tarde, todas haviam sido vendidas. Devolver não podia. "Trocar, só com outro passageiro." Explicou o atendente. Ficou desconsolado. Encarar dois dias de ônibus ao lado de uma velha caquética seria demais para ele. Sem solução, Tímbaúba entrou no primeiro bar e começou a encher a cara até ficar de porre de não se aguentar em pé. Para embarcar precisou da ajuda de outros passageiros.
Na hora da partida, da sua janela, com o pouco que ainda lhe restava de sobriedade, Timbaúba viu a velhinha acenando para o ônibus, já em movimento. Jogando-se sobre ele, uma linda morena respondia aos acenos. Segundo os passageiros, nem tacacá misturado ao açaí teria curado mais rápido o porre do Timba,